Velha… quem, eu?

Velha… quem, eu?

Silvia Bruno Securato (extraído do Livro Mulheres Escritoras do Mundo)

Revendo alguns livros infantis, que separei para minhas netas, encontrei o livro As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Quem não gosta das histórias fantásticas do Sítio do Pica-Pau Amarelo? São incríveis e eternas. Porém, nada eterno foi a frase que li, logo no início do livro, que diz assim:

Numa casinha branca, lá no Sítio do Pica-Pau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo…

A figura que ilustra a página é a de uma senhora, de cabelos brancos, presos em um coque e, naturalmente, com óculos redondos na ponta do nariz. Uma velha com mais de sessenta anos! Meu Deus, pensei; o que é isso? Como a vida mudou! Como esse conceito se transformou! Hoje, vemos mulheres lindas com 60, 70, 80, 90 anos. São joviais, ativas e independentes. Trabalham, cuidam da família, as atividades físicas fazem parte de suas rotinas, viajam, frequentam teatros, cinemas, clubes, faculdade para terceira idade; muitas fazem parte das redes sociais na internet. Se viúvas ou separadas, reúnem-se com as amigas e vão dançar,com seus Personal Dancers; viajam juntas, estão sempre em atividades prazerosas. Nos Cruzeiros marítimos, vemos que a maioria das pessoas pertence à idade madura: os aposentados, que estão lá para se divertirem e aproveitar a vida, la dolce vita! Que diferença dos meus avós! Comparando-se com os dias de hoje, jamais, há alguns anos atrás, se imaginaria uma mudança cultural desse porte. Minha avó possuía uma vida bastante semelhante à de Dona Benta: dedicava-se à família, em especial ao marido, à cozinha, curtia os netos, cuidava das plantas… Suas distrações eram receber e fazer visitas aos parentes, ouvir uma radionovela, ouvir long plays ou fazer trabalhos manuais. Um detalhe: sempre com um vestido bonito, sapatos confortáveis “de sola Anabela”, um modelo bastante típico para a idade, não dispensava as joias, o pó de arroz e um batonzinho, para dar aquele colorido no rosto. Os cabelos grisalhos eram curtinhos ou, se longos, sempre presos em um coque. Aos domingos, bem cedinho, já se iniciava o preparo do molho, para uma bela macarronada. Os tomates maduros iam para a panela e lá ficavam cozinhando, cozinhando. Depois, seguia-se para o preparo da massa para a pasta. A mesa da cozinha ficava repleta dela, aguardando o momento do cozimento. Preparava-se a maionese, uma bela torta de frango ou escarola, uma salada mista, os pimentões, as berinjelas e uma coisinha e outra para aperitivo. O vinho não poderia faltar. Para as crianças, refrigerante – soda. À tarde, eram servidos doces, frutas, sucos, leite, café… À noite, uma boa zuppa. As Missas dominicais, naturalmente, eram imperdíveis. Em dias de festa, as mulheres se reuniam para preparar os salgados e doces, rodeadas pelas crianças, que disputavam as panelas, para raspar os restinhos dos doces que sobravam.

A vida era bastante regrada e trabalhosa. Nos anos 60, os eletrodomésticos estavam sendo lançados. Mesmo com alguns desses à disposição, as tarefas domésticas eram árduas, os dias eram longos! Eram tempos deliciosos! As crianças brincavam na rua, ou nas casas de amigos próximos. A porta de casa ficava sempre encostada; os portões permaneciam fechados para que os cachorros vira-latas não entrassem em casa. Íamos para o Colégio a pé, ou de ônibus. Com menos de dez anos, eu já os utilizava, para ir ao Colégio. Não havia perigo. Eu tinha muitas atividades. Depois do Colégio, fazia aulas de inglês, jogava vôlei e estudava violão, me encontrava com amigas praticamente todo final de tarde e dava tempo para tudo, com tranquilidade. As refeições eram feitas com a família reunida, sempre. Tudo tinha seu momento. As normas de vestimenta eram bem marcantes. Crianças se vestiam de uma maneira; os jovens eram mais ousados. Adultos, em especial as mulheres casadas, eram sóbrias: eram senhoras aos trinta anos e Rainhas do Lar. Frequentava-se casas de chá e nunca, jamais, uma mulher pediria um café em pé no balcão. Quando enviuvavam, passavam seis meses de luto, vestindo-se de preto. Os anos foram passando. A tecnologia e a pílula anticoncepcional foram, aos poucos, mudando o ritmo de vida e os conceitos morais. A mulher teve suma importância para que isso acontecesse. A vida, hoje, é bastante corrida. As crianças, já desde cedo, fazem muitas atividades, são participativas, opinam, a maneira de educá-las é totalmente diferente. Por outro lado, são mais vigiadas, geralmente têm babás, pois as mães trabalham, são profissionais ativas e as crianças estão continuamente acompanhadas por um adulto. O tipo de “liberdade” mudou. Antes eram criaturas educadas para obedecerem e não emitiam opiniões. Contudo, eram livres para brincar “na rua”. Bastava voltar para casa antes do anoitecer! Hoje, já nascem tecnológicas mas, por outro lado, muitas vezes, não sabem amarrar um tênis… São mais dependentes nesse sentido. O conceito: idade, vestimenta, comportamento em família e social mudou completamente. Eu sou uma jovem de sessenta anos! Casei cedo, aos vinte anos. Tive três filhos e, até o momento, tenho cinco netos. Trabalho, faço academia, cuido dos detalhes familiares. Amo: passar os finais de semana com “o pé na areia”, dançar com frequência, viajar, reunir com os amigos em barzinhos ou restaurantes, receber os filhos e netos para o almoço quando, em geral, ou apelamos para um churrasco – onde os homens assumem o comando de assar as carnes – ou a comida já vem pronta, pois nem sempre dá tempo de preparar algo especial e caseiro. Levo uma vida agitada. Meu tempo é bastante corrido para dar conta de tantos detalhes variados. Costurar, fazer trabalhos manuais? Nem minha mãe, que antes era obrigada a fazê-los, não gostava mais. Que coisinha chata! Muito mais divertido percorrer as redes sociais, fazer pesquisas na internet, se comunicar com o mundo, que ficou tão pequeno a ponto de caber na palma de nossas mãos. Nossos bons amigos nem sempre são os vizinhos, ou pessoas do bairro. Muitos vivem em outros países; nos falamos por Skype, nos encontramos em momentos de viagens. Saudades dos tempos da Rainha do Lar? Muitas jovens guerreiras, que trabalham, aprofundam seus estudos continuamente, acompanham as regras sociais impostas: ser linda, elegante e magra, Até sentem uma saudade profunda, ou preferiam pertencer a esses momentos que não viveram. Tudo, em todas as épocas, tem seus pontos positivos e negativos. Equilibrá-los… eis a questão!

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